Chacina de Costa Barros completa um ano e familiares de vítimas cobram Justiça

Familiares de vítimas da Chacina de Costa Barros e de outras favelas em ato na porta do TJ-RJ. Foto: Luiza Sansão

Em ato emocionado na segunda-feira (28/11), familiares dos cinco jovens mortos por PMs na favela de Costa Barros, na zona norte do Rio, bradaram por Justiça. Presos, PMs acusados pela chacina aguardam julgamento

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Jorge Roberto Lima da Penha, pai de Roberto Silva de Souza. discursa em ato de um ano da Chacina de Costa Barros. Foto: Leo Coelho

Familiares de vítimas de violência policial se reuniram nesta segunda-feira (28), na porta do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro), para relembrar, em um ato emocionado, a Chacina de Costa Barros, que completou um ano. No triste episódio, quatro policiais militares do 41º BPM (Irajá) realizaram 111 disparos de fuzil contra o Palio branco em que estavam Carlos Eduardo Silva de Souza, de 16 anos, Cleiton Corrêa de Souza, de 18, Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20, Roberto Silva de Souza, de 16, e Wesley Castro Rodrigues, de 25. Os amigos voltavam de uma lanchonete perto da comunidade.

Por atirarem nos cinco jovens e em Wilkerson Luis de Oliveira Esteves e Lourival Júnior, que acompanhavam de moto o carro que foi fuzilado, foram denunciados por homicídio qualificado e tentativa de homicídio qualificado os PMs Antônio Carlos Gonçalves Filho, Fábio Pizza Oliveira da Silva, Thiago Resende Viana Barbosa e Márcio Darcy Alves dos Santos, que respondem ainda por fraude processual e posse de arma com numeração raspada. Presos no dia seguinte ao da chacina, os agentes chegaram a ser soltos em junho deste ano, mas um recurso do Ministério Público os levou de volta à prisão em agosto e 28 habeas corpus foram impetrados desde então, mas eles permanecem presos na unidade prisional da PMERJ, em Niterói.

Os familiares das vítimas aguardam, ansiosos, pela sentença condenatória. “Eles estão presos, mas podem conseguir conseguir um habeas corpus de repente e ser soltos. Por isso nós estamos aguardando a sentença condenatória para fechar o círculo”, afirmou Jorge Roberto Lima da Penha, de 52 anos, pai de Roberto Silva de Souza. Além de perder o filho, Jorge perdeu a esposa, Joselita de Souza, oito meses depois. “Morreu de depressão. Uma mãe não aguenta sepultar o filho de 16 anos”, disse.

O taxista Carlos Henrique da Silva chegou a tentar suicídio na Ponte Rio-Niterói após a morte do filho, Carlos Eduardo Silva de Souza, o Carlinhos. “Carrego comigo a dor da perda do meu filho, emoções e imagens muito fortes dele. A gente não está em paz. Enquanto o juiz não bater realmente o martelo, não vamos sossegar”, completou.
Sua ex-mulher, Adriana Pires da Silva, mãe de Carlinhos, também chegou a tentar tirar a própria vida. “Está sendo muito difícil. Demorou para cair a ficha de que mataram meu filho. Foi tão difícil criá-lo. A dor é muito grande”, disse ela, sem conseguir conter as lágrimas. “Tenho que seguir em frente, porque a minha filha precisa de mim. Ela tem só seis anos e não sabe como um ser humano pode ser tão cruel”, completou. Ela relatou que uma moça da comunidade chegou a ouvir os jovens dizendo “não faz isso não, nós somos moradores”, enquanto os policiais atiravam contra eles.
Terezinha de Jesus, mãe de Eduardo de Jesus, morto por PMs no Complexo do Alemão em 2015, segura cartaz com fotos de vítimas de Costa Barros. Foto: Leo Coelho
Terezinha de Jesus, mãe de Eduardo de Jesus, morto por PMs no Complexo do Alemão em 2015, segura cartaz com fotos de vítimas de Costa Barros. Foto: Leo Coelho

Os familiares de vítimas de violência policial ressaltaram a importância de se manterem unidos na luta por Justiça. “É muito significativo pra mim ter todo esse apoio, saber que não estou sozinho nessa briga”, disse Carlos.

“A união dos familiares nessa luta fortalece muito a gente. Unidos, nós temos mais força e mais segurança para lutar por justiça pelos nossos filhos”, disse Tereza Maria de Jesus, mãe de Eduardo de Jesus, morto aos 10 anos de idade com um tiro na cabeça, enquanto brincava com um celular na porta de sua casa, no Complexo do Alemão, em abril de 2015.

Uma das lideranças do movimento de mães de vítimas, Ana Paula Oliveira discursou em apoio aos familiares das vítimas da chacina. “Nós estamos aqui juntando nossas forças com a desses pais que estão há um ano sofrendo a ausência de seus filhos. Estamos aqui para dar as mãos e dizer que não vamos esquecer e não vamos deixar que a sociedade esqueça o que fizeram com nossos filhos”, disse ela, cujo filho, Johnatha de Oliveira Lima, foi assassinado com um tiro nas costas aos 19 anos de idade, na favela de Manguinhos, em 2014.

De acordo com o promotor Fábio Vieira, do 2º Tribunal do Júri, os acusados serão interrogados depois que diligências requeridas por seus advogados de defesa forem completadas. “A minha convicção é de que está muito clara a responsabilidade criminal de todos eles e estamos aguardando para que essa instrução termine para que eles sejam pronunciados e nós possamos fazer o júri. Não sei quanto tempo vai demorar porque depende do interesse das partes em recorrer ou não de uma decisão judicial no término dessa primeira fase”, afirmou.

Relatos de ameaças

Um dos familiares das vítimas, que não será identificado para sua segurança, relata que já sofreu ameaças por estar lutando por Justiça. “Pra gente está sendo muito complicado. Estou me sentindo completamente ameaçado e tem outros pais na mesma situação. Teve um pai que teve que se mudar de onde morava, porque estava com medo. Ele foi perseguido, passou por uma situação complicada e está com medo”, conta.

Familiares de vítimas da Chacina de Costa Barros e de outras favelas em ato na porta do TJ-RJ. Foto: Luiza Sansão
Familiares de vítimas da Chacina de Costa Barros e de outras favelas em ato na porta do TJ-RJ. Foto: Luiza Sansão

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