“Estamos vivendo um ciclo de violência”, diz Fernando Grella

Secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, participa de lançamento de operação policial no Capão Redondo/Foto: William Cardoso

Secretário da Segurança Pública de SP diz que aumento na letalidade policial decorre do aumento do número de roubos o que favorece a ocorrência de confrontos

O secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Fernando Grella Vieira, afirma que o aumento do número de roubos, apontado por ele como um fenômeno nacional, favorece a ocorrência de confrontos, o que justificaria o crescimento no número de mortos pela polícia. Em entrevista concedida no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, durante o lançamento de uma operação de combate ao crime, Grella conversou com a Ponte e disse que os próprios PMs têm denunciado colegas que participam de ações violentas.  “Isso mostra que o sentimento dominante da corporação não é esse (de violência)”, diz.

Secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, participa de lançamento de operação policial no Capão Redondo/Foto: William Cardoso
Secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, participa de lançamento de operação policial no Capão Redondo/Foto: William Cardoso

O número de mortos por PMs em folga e em horário de serviço cresceu muito neste ano, em comparação com o ano passado. São cinco mortos a cada dois dias. O que pode ser feito para diminuir a letalidade da polícia no Estado?

Fernando Grella Vieira – Primeiro, sempre tenho defendido o controle de armas. Acho que é algo urgente intensificar um programa de controle de armas. Em segundo, operações como essa que estamos iniciando hoje (de prevenção ao crime, com grande efetivo), que tem o sentido de abordar e recolher armas, capturar criminosos, inibir e reduzir roubos. Em terceiro lugar, alguns levantamentos que temos em mãos mostram que é verdade, sim, que cresceu a letalidade, mas cresceu também o número de confrontos. Ou seja, de maneira geral, nós sabemos que o número de roubos, não só em São Paulo, mas no Brasil, sofreu um aumento. Se formos relativizar, pegando o número de confrontos com o número de pessoas mortas, você vai ver que o percentual não é muito distante do que tivemos em anos anteriores. Devemos estar sempre revendo os procedimentos operacionais, estudar caso a caso, para melhorarmos. Com que objetivo? Exatamente para que a abordagem possa ser feita da melhor maneira possível para evitar o uso de arma, da letalidade. Esse é um compromisso que a gente tem, é um compromisso da corporação.

Quais as causas do aumento da letalidade?

Estamos vivendo esse momento em que realmente aumentou a letalidade, mas, pelos números que recebemos, muito em função do número de confrontos. E por que nós estamos tendo um aumento no número de confrontos? Porque aumentou o número de roubos, e isso não é um problema só de São Paulo, mas algo nacional. Isso, sempre ressalto, não nos exime. Estamos estudando caso a caso, o comando está fazendo isso também, para que possamos nos aprimorar. É uma realidade que está aí, estamos vivendo um ciclo de violência e é difícil passar dois, três dias sem a apreensão de um fuzil. Temos apreensão de fuzil rotineiramente. Ontem mesmo foram apreendidos dois fuzis lá na Baixada Santista, com um pessoal que está sendo capturado por furto de caixa eletrônico. Então isso tem sido uma constante. Isso é que a gente precisa deixar claro. Precisamos trabalhar nesse assunto, sem dúvida nenhuma. É consciência do comando, do alto comando, que temos que trabalhar, mas também estamos enfrentando a violência.

O que tem sido feito em casos como a das chacinas de Carapicuíba, onde há indícios de participação de policiais?

Já ocorreram duas prisões (nos casos de Carapicuíba). As investigações estão seguindo e quero que fique clara uma coisa: o inquérito é conduzido pela Polícia Civil, mas a Corregedoria da PM está dando todo apoio. Ontem mesmo tivemos diligências de busca e apreensão todas acompanhadas pela Corregedoria da PM, que tem facilidades. Não temos nenhum compromisso a não ser com a apuração e com a verdade. A resposta que temos que dar nesses casos é uma apuração correta, séria, e a responsabilização dessas pessoas. Evidentemente, quanto mais conseguirmos êxito nesses esclarecimentos maior será o desestímulo a comportamentos desse tipo, que são pontuais. Se a gente imaginar uma instituição que tem 88 mil homens, o universo de pessoas que conseguimos identificar (em desvios) é um percentual pequeno. Mas, enfim, não era e não é para acontecer. Nós trabalhamos para que esse tipo de situação não ocorra, mas não há outro caminho a não ser apurar e punir.

Quando o senhor assumiu, houve um investigação emblemática, a da chacina no Jardim Rosana (sete mortos em um bar, após um morador filmar execução cometida por PMs ), que foi um marco no fim do ciclo de violência que havia até então, com a prisão dos policiais envolvidas. A gente vê agora um novo crescimento da violência. Há alguma coisa que possa ser feita novamente para marcar a posição da SSP e da PM no apoio à legalidade?

Temos trabalhado nesse sentido. Esse caso de Carapicuíba é um exemplo. Já ocorreram duas prisões. Se houver necessidade de outras prisões, se as provas se justificarem, elas ocorrerão. Tivemos um caso de São José dos Campos, na semana passada, que foi esclarecido e tivemos prisão. O de Campinas está sendo apurado. O que temos que fazer é dar resposta. É caminhar com investigação séria, isenta e, se aponta para a responsabilidade e participação de policiais, é requerer a prisão e puni-los. Deixando muito claro que nós e o comando não temos nenhum compromisso que não com a lei. A nossa preocupação é investigar com precisão e responsabilizar. Acredito que esses casos, essas atuações pontuais que temos tido notícia pelas investigações, vão merecer uma resposta rápida e repercutir na tropa, para mostrar que estamos firmes nessa linha. E que a própria corporação saiba disso. Em muitas investigações, os próprios policiais têm dado informações, porque eles não concordam com a atitude isolada de pessoas que não são bons policiais, que não são verdadeiros policiais. Temos tido, em mais de um caso, a colaboração anônima, mas sabemos que são policiais militares que discordam desse tipo de coisa. E são da mesma unidade ou da mesma região. Isso mostra que o sentimento dominante da corporação não é esse (de violência). São casos isolados que nós temos que reprimir com firmeza.

 

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