“Falaram que dessa vez era o nariz. Na próxima, caixão”, diz jovem agredido por PMs

Estudante de 16 anos teve nariz e osso abaixo do olho direito quebrados com soco de policiais; SSP-SP aponta remanejamento de agentes para trabalhos na Corregedoria

Agredido por dois policiais militares na terça-feira (14/03), no Guarapiranga, zona sul de São Paulo, um estudante de 16 anos (cujo nome não será divulgado) afirma ter medo de possíveis represálias por parte dos agressores, que fizeram ameaças à sua mãe. Câmeras de seguranças flagraram os socos e chutes dos PMs que quebraram dois ossos do rosto do jovem.

“Quando ela viu o que aconteceu, foi lá tirar satisfação. O policial confirmou que foi ele que me bateu e ainda disse que, dessa vez, tinha sido o nariz, na próxima, me colocaria num caixão. É para isso que eles trabalham, para amedrontar a gente ou garantir nossa segurança?”, questiona o garoto, que está no 9º ano do ensino fundamental.

O caso aconteceu às 2h30 da manhã. Enquanto estava em frente a casa de um amigo, junto dele, ambos foram abordados pelos policiais. Após dizer que entraria junto com o amigo na casa, os PMs o impediram e, neste momento, começaram as agressões.

“Eles disseram que foi desacato, mas não tinha motivo para agredir. Ou traziam ele para casa ou levava para a delegacia. Quebraram o rosto dele”, critica a irmã da vítima.

O garoto precisou fazer cirurgia para corrigir as fraturas. Além do nariz, o osso abaixo do olho direito foi fraturado. Após duas horas e meia de procedimento, os traumas foram corrigidos. Apesar de liberado para voltar à vida normal, o estudante permanece preso em casa.

O jovem ficou internado de terça à sexta-feira. De acordo com a família, foram gastos cerca de R$ 200 com medicamentos contra dor.

“Tive de fazer uma cirurgia para corrigir. Ficou feio, tenho medo de ficar marca. Também não consigo sair para a rua, tenho medo. Eles trabalham aqui perto, ameaçaram a minha mãe”, explica. “Nós estamos presos na nossa casa. Até pensamos em sair daqui, porque a base é um quarteirão de casa. Não sabemos para onde ir, mas queremos sair até a poeira abaixar”.

Trabalhador de uma distribuidora de gás, o estudante não trabalhou nem foi à escola nesta semana.

SEM MOTIVO

Segundo relata o jovem, antes das agressões físicas ele e o amigo, de 19 anos, sofriam ofensas verbais por parte dos policiais.

“Fomos abordados e, a todo momento, eles ofendiam a gente. Somos moradores, não é a primeira ou segunda vez que acontece. Todos os meus amigos que são abordados sofrem com isso. Graças a Deus, nada aconteceu com eles e, por sorte, tinha uma câmera para filmar o que fizeram comigo. Os policiais acham que impor respeito é bater, chutar… Igual fizeram comigo. Sempre é assim, esculacham a gente. E me deixaram zoado”, lamenta-se.

Em recuperação, ele ainda tenta entender o que motivou os socos e ponta-pés por parte dos agentes do Estado. Para o estudante, a única explicação que vem à mente é racismo.

“Até agora não sei porque apanhei. Não vou mentir, não faço a menor ideia. Deve ser pela minha cor. Qualquer cara moreno já sofre em abordagem. Quem é abordado em quebrada já sofre, eu fui abordado em um bairro bacana”, tenta explicar. “Tenho de agradecer meus pais por tudo o que eles fizeram para poder me oferecer um lugar bacana para morar, mas a abordagem aqui é pior para a gente, tem preconceito demais. Eu trabalho carregando gás, falei isso para o policial, ele disse que não queria saber, que só queria saber do meu fim, que iriam me matar. Revolta muito. Uma vez fui abordado com o meu sobrinho de dois meses. Deixaram o carrinho dele no sol, é complicado…”, diz.

OUTRO LADO

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública), que tem à frente o secretário Mágino Alves Barbosa Filho, nesta quarta gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB), afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, terceirizada pela empresa CDN Comunicação, ter aberto um IPM (Inquérito Policial Militar) para apurar este caso.

“As imagens da câmera de monitoramento estão sendo analisadas. Foi solicitado exame de corpo de delito ao rapaz. A Polícia Militar informa que foi instaurado um IPM e os policiais envolvidos foram recolhidos para serviços administrativos na Corregedoria da PM”, explica.

De acordo com a Polícia Civil, a família do estudante procurou o 37º DP, baseado no Campo Limpo, e registrou ocorrência por lesão corporal na última quinta-feira. A análise do ocorrido ficará por conta do 92º DP (Parque Santo Antônio).

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