Família suspeita que transexual foi assassinada em SP

Agatha Mont/Arquivo Pessoal

Segundo o irmão de Agatha Mont, seu corpo tinha sinais de agressões, com hematomas na cabeça, rosto e costas; laudo do IML aponta infarto como causa da morte

Agatha Mont. Foto: Arquivo Pessoal

Familiares da estudante Agatha Mont, de 26 anos, afirmam que a jovem foi assassinada no último final de semana em uma rua de Itapevi, município na Região Metropolitana de São Paulo. Tendo constatado marcas de espancamento no corpo da jovem, seus pais e seu irmão não aceitam o laudo emitido pelo IML (Instituto Médico Legal) de Osasco, segundo o qual a morte da transexual teria sido ocasionada por “insuficiência do miocárdio”, o mesmo que infarto. Para eles e os amigos e militantes LGBTs, Agatha Mont foi morta covardemente. Seu corpo foi sepultado nesta terça-feira (7/2).

De acordo com o boletim de ocorrência ao qual a reportagem teve acesso, o corpo de Agatha foi encontrado por dois guardas municipais na rua Serra dos Gradaus, no bairro Jardim Rosemery, por volta das 4h de sábado (4). Agatha estava sem documentos. Mesmo encontrada durante a madrugada, a ocorrência só foi comunicada e elaborada pela Delegacia de Itapevi às 7h46. A família da jovem, no entanto, soube de sua morte somente na manhã de segunda-feira (6), quando procurou a delegacia e o IML após dois dias sem notícias suas.

“Minha irmã estava toda machucada, muita marca de agressão. No rosto, nas costas, na cabeça. Foi assassinato. Nós não estamos aceitando como infarto. Meus pais e eu queremos Justiça. Minha irmã não mexia com coisa errada, drogas, nem nada”, afirma o motoboy Arthur Rodrigues, de 28 anos, irmão de Agatha.

Estudante de licenciatura em Artes na FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), Agatha Mont ficou conhecida no final do ano passado após ter denunciado as discriminações que sofria de alunos da unidade São Joaquim, na região central da cidade. Toda vez que entrava no banheiro feminino do campus, ela era obrigada a se deparar com os dizeres rabiscados na porta: “Respeite o espaço das mulheres. Macho de saia, não”. Isto porque, fazendo uso de direito reconhecido pela Justiça brasileira e pela própria faculdade, Agatha usava o banheiro feminino.

Agatha Mont. Foto: Arquivo Pessoal

A jovem era vaidosa. Desde que, aos 17 anos, comunicou a família que deixaria de lado o nome de Evandro e passaria a atender por Agatha, seu cabelo estava sempre arrumado, os lábios pintados com batom, as roupas perfeitas, aparência impecável. Os pais e os irmão a apoiavam.

O gosto de Agatha pela vida noturna provocou na família angústia que se prolongou por mais de dois dias, depois que ela deixou a residência da família pela última vez. Como de costume, ela saiu de casa na noite de sexta-feira (3) para uma balada, segundo seu irmão. Como era comum a jovem sair de casa por algumas horas ou da noite para o dia sem avisar, mesmo receosos, o sábado passou despercebido. Já na manhã de domingo, seus pais ficaram preocupados, conta Rodrigues.

Segundo ele, na noite de domingo, por acaso, acessou uma publicação no Facebook que dava conta da morte de uma travesti a cerca de dois quilômetros de sua casa, localizada no Bairro dos Abreus. A família teria então resolvido esperar o amanhecer de segunda-feira (6) para procurar a delegacia, que os encaminhou até o IML. Ao chegar ao local, a angústia se transformou em profunda tristeza, com o reconhecimento do corpo da irmã violado, com marcas na cabeça e tórax.

De acordo com testemunhas, ao ser encontrada pelos guardas municipais, a mulher estava nua, de bruços no chão, com uma camisa enrolada no pescoço. Acima do supercílio ainda havia um ferimento e aparente inchaço.

Com o sonho de trabalhar em artes cênicas, Agatha já havia feito algumas peças de teatro e esperava contracenar e interpretar cada vez mais, segundo sua família. Seu gosto pela arte pode ser lembrado em sua página pessoal no Facebook, com vários relatos sobre o mundo artístico e cultural onde ela desejava estar. Na mesma página, também é possível ler manifestações de carinho, tristeza e perplexidade com a violência que acreditam ter sido praticada contra ela.

Outro lado

Questionada pela reportagem sobre as circunstâncias da morte de Agatha Mont, a SSP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) enviou, por meio de sua assessoria de imprensa, a seguinte nota:

Polícia Civil informa que a Delegacia de Itapevi instaurou inquérito policial para investigar a morte de um homem que foi encontrado neste sábado (04), às 4h, na Rua Serra dos Gradaus, Jardim Rosimery, Itapevi. Diligências estão sendo feitas para localizar câmeras de segurança na região e o delegado titular aguarda o resultado dos laudos.

 

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