Grada Kilomba: o racismo e o depósito de algo que a sociedade branca não quer ser

A escritora e artista Grada Kilomba. Foto: Ute Langkafel

O racismo é uma problemática branca que força o negro a protagonizar um papel que não é o seu e com o qual não se identifica, afirma a escritora e artista negra Grada Kilomba

A escritora e artista Grada Kilomba. Foto: Ute Langkafel
A escritora e artista Grada Kilomba. Foto: Ute Langkafel

 

Escritora, teórica, artista, Grada Kilomba tem trabalho debruçado no saber descolonial e nas relações entre gênero e raça. Professora da Universidade de Humboldt, na Alemanha, é uma mulher cosmopolita e em constante trânsito, fato que reflete diretamente em sua criação artística, esta tecida a partir de um olhar afrocentrado e de mulher negra, fundamentais para a luta contra as fronteiras e limitações de pensamentos.

Nascida na capital portuguesa Lisboa, Grada possui origens centradas no continente africano, precisamente em Angola, São Tomé e Príncipe e  Moçambique, e atualmente vive na vibrante Berlim, capital alemã.
Visitando o Brasil, além de São Paulo, a artista e escritora esteve ainda na atlântica Salvador, onde também no Instituto Goethe promoveu conversas públicas divididas cronologicamente em três momentos: passado, presente e futuro, que apresentaram recortes de seus trabalhos e ainda algumas das obras que têm desenvolvido para a 32ª Bienal de São Paulo, na qual expõe os projetos “The Disire Project” (O Projeto do Desejo) e a performance “Illusions” (Ilusões).
“Eu acho que preciso desse espaço híbrido e cosmopolita em que temos muitas identidades diferentes, vivências. Isso é que me permite fazer meu trabalho. Eu tenho tantas nacionalidades dentro da minha biografia. São Tomé e Príncipe, Angola, de onde vêm minha mãe e sua família; meu pai é português e minha irmã e meu irmão nasceram em Moçambique. Já eu nasci em Portugal e vivo na Alemanha, meu marido é da África do Sul, de Soweto, em Joanesburgo, o pai dele é Sutu, a família é Zulu,” conta Grada, na última entrevista antes do recesso para celebrar as festas de fim de ano, em uma tarde quente de dezembro, ao fim da primavera de Salvador.
É municiada desta multiplicidade de vozes e vivências que ela constrói sua obra e pensamento acerca das diferentes realidades vividas pelos negros diaspóricos e da África, subsídios suficientes para afirmar que o racismo é uma problemática branca. Entretanto, a partir desta constatação é preciso refletir sobre o papel ocupado pelo negro. Trocando em miúdos, se o racismo é uma problemática branca, onde fica o negro nessa história toda?
“É uma pergunta interessante. O racismo é muito complexo, lida com uma série de alienações e uma das alienações é exatamente a de que eu, enquanto pessoa e mulher negra, posso ter meu dia a dia interrompido e ser forçada a lidar com uma questão que não me pertence a princípio. Sou forçada a lidar com uma série de fantasias e de fantasmas que não são os meus. O racismo nos usa como depósito de algo que a sociedade branca não quer ser. Algo que é projetado em mim e eu sou forçada neste mise en scene, nesta encenação, a ser a protagonista de um papel que não é meu e com o qual eu não me identifico” explica.
A escitora e artista Grada Kilomba. Foto: Moses Leo
A escitora e artista Grada Kilomba. Foto: Moses Leo
Para Grada Kilomba, autora entre outros do livro Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism (Plantação de Memórias: Lidando com o Racismo Diário), a pessoa negra e seu corpo são usados como uma espécie de tela que projeta aquilo que o corpo branco e patriarcal masculino não é, especialmente se pensarmos em cidades litorâneas e predominantemente negras, como Salvador, que reservou o trabalho braçal e atinge com inúmeras agressões os corpos de homens e mulheres negras.
“A sexualidade, que é extremamente negada nessa sociedade, é projetada nos outros corpos, pois se tornam sujos, obscenos, marginais, sexuais, perigosos, criminosos, agressivos e abusivos. Todas estas metáforas e fantasmas são projetados nestes corpos. Nós estamos como um depósito de tudo aquilo que a sociedade branca patriarcal não quer ser. Mas não somos. É um papel forçado que não nos cabe. É um papel de profunda alienação e que nós reconhecemos em muitos ismos diferentes, como no racismo e na homofobia”, pontua.
Como performer, Grada utiliza seu corpo negro como espaço de expressão artística do que significa ser uma mulher negra diaspórica em um mundo onde a existência do sujeito negro, em inúmeras vezes, é negada ou coibida violentamente.
Neste sentido, é necessário recorrer ao artigo escrito pelo professor de Estudos Afrodiaspósricos da Universidade do Texas, João H. Vargas, que analisa, no livro “Antinegritude: o Impossível Sujeito Negro na Formação Social Brasileira”, a situação e os eventos políticos do Brasil para afirmar a impossibilidade da existência do negro socialmente. “Pessoas negras estão fora de lugar em lugares de privilégio como os shopping centers, mas elas também estão fora de lugar independente de lugar”.
Enquanto pensadora e ativista, Grada Kilomba acredita que não é permitido que homens e mulheres negras existam socialmente em grande parte dos espaços. Para a escritora, é necessário criar uma agenda própria que rompa com o racismo estruturante.
“Eu acho que é uma questão muito profunda e quase abstrata. Nós existimos muito bem, mas não podemos existir plenamente em uma série de espaços. Contudo, acho que nós muitas vezes nos esquecemos de que nós existimos com grandeza nestes espaços, que não podem existir sem estas perguntas que vem com o feminismo, o queer, de todo o movimento negro, do pós-colonialismo e que nós vindos das margens e com uma história de discriminação e de privação, questionamos as regras e as perspectivas”, afirma.
“O centro não pode existir e sobreviver sem o diálogo com a margem. Portanto é uma existência muitas vezes privada fisicamente, mas que intelectualmente e artisticamente é uma existência muito forte e muito empoderada, e às vezes não temos noção disso. Eu acho que temos que aprender a nos focarmos, pois muitas vezes estamos focados na agenda do outro e na agenda do outro não existimos de fato”, completa.
No caminho de cura das inúmeras feridas e inúmeras violências sofridas ao longo do percurso, os negros diaspóricos se encontram muitas vezes em busca de uma África imaginada, romantizada, segundo Grada. O continente negro é visto como uma espécie de mãe, que, de braços abertos, espera pelo retorno de seus filhos.
Segundo a artista e escritora de ascendência em Angola e Moçambique, isso se dá justamente pelo trauma causado pelo racismo que veio junto com a predatória colonização europeia. Mesmo compreendendo e acreditando ser um processo normal, a autora explica que é necessário se apegar no modernismo e no aspecto urbano e cosmopolita das diásporas africanas.
“Eu acho que é uma busca inconsciente, é uma resposta a um trauma colonial. O grande saudosismo à Mãe África tem a ver com uma história muito traumática que nós temos, por ser uma diáspora que vivenciou a escravatura e que foi comprada e vendida. Uma diáspora de segmentação, de separação, de isolamento”, conclui.
Cosmopolita, plural e diaspórica, Grada chama a atenção para a necessidade de se pensar uma agenda que abarque todas as expressões artísticas e reivindicações de homens e mulheres negras, até mesmo como forma de combate ao racismo e principalmente de empoderamento, fundamental nesta empreitada. Aliás, para ela, empoderamento não é nada menos do que “a liberdade de ser eu, como os outros também podem ser eles”.

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