Jovens acusam guardas municipais de agressões físicas e verbais durante rolezinho

Guardas teriam ameaçado jovens logo na entrada do parque

Entre as violações apontadas estão: xingamentos, discriminação, além de pisões e joelhadas por parte de homens do IOPE (Inspetoria de Operações Especiais), da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo

Um encontro entre aproximadamente 1.500 jovens, em sua maioria moradores da periferia,  no Parque do Carmo, na região de Itaquera (zona leste de São Paulo), no sábado (25/03), virou motivo de diversas denúncias contra agentes da GCM (Guarda Civil Metropolitana) de São Paulo por agressões físicas e verbais. As reclamações partem dos organizadores e dos participantes do encontro, conhecido como “rolezinho”.

À reportagem, a Prefeitura de São Paulo, administrada por João Doria (PSDB), não desmentiu as denúncias de agressões físicas e verbais e alegou que os problemas foram algo “pontual”. A administração municipal também informou que Corregedoria da instituição está à disposição para receber as denúncias sobre os abusos. A prefeitura afirmou ter apreendido grande quantidade de bebidas alcoólicas nos últimos eventos realizados.

De acordo com Darlan Mendes, presidente da Associação Rolezinho a Voz do Brasil, ao menos 16 jovens relataram ter sofrido algum tipo de violação de direitos durante o encontro no parque municipal. Entre as violações estão: discriminação, criminalização e agressões físicas como pisões e joelhadas por parte de integrantes do IOPE (Inspetoria de Operações Especiais), da GCM. O IOPE é uma espécie de tropa de elite da guarda, responsável por atuar contra ambulantes irregulares e em distúrbios na região conhecida como Cracolândia, no centro.

Reprodução/Arquivo pessoal
Homens da Guarda Civil teriam ameaçado jovens logo na entrada do parque. I Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

“Os meninos estão com medo dessa agressão, da violência por parte da GCM, especialmente do IOPE. Nas últimas atividades ocorreu agressão verbal, discriminação pelos jovens serem rolezeiros [como eles se chamam]. Revista só para os jovens que têm característica de rolezeiros [em sua maioria utilizando bonés, óculos escuros, camisetas, bermudas e tênis coloridos] ou jovens negros. Os três jovens encaminhados à delegacia e os que foram hostilizados eram jovens negros ou com tatuagens”, diz.

“Nós vimos claramente uma ação em que um GCM chamava o rapaz de noia, marginal, vagabundo. Ele nos relatou e fomos conversar com o GCM. Teve agressão física também. Foram 16 pessoas que se queixaram de agressão física ou verbal por parte da GCM”, contou à Ponte Jornalismo.

Diante das denúncias de abuso de autoridade, submissão de adolescentes à constrangimento, ameaças, além de discriminação, supostamente cometidos pelos GCMs, a coordenadoria da Comissão da Criança e do Adolescente do Condepe (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana) protocolou, ontem, pedido de análise por parte da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, a qual a guarda está subordinada.

“Pedi que a Secretaria Municipal de Segurança Urbana instaure sindicâncias e procedimentos apuratórios. Os jovens não podem ser criminalizados por estarem exercendo a cidadania ao participarem de atividades de lazer nos espaços públicos. Os agentes públicos devem orientá-los e também atuarem na prevenção de violência e de consumo de álcool e drogas. Não podem fazer abordagens agressivas e abusivas, com ameaças, discriminações e constrangimentos”, afirmou o coordenador da comissão, Ariel de Castro Alves.

Confusão terminou com jovens sendo levados até DP. I Reprodução/Arquivo pessoal

De acordo com Darlan Mendes, ainda devem ser encaminhados ofícios com o teor das denúncias para a Prefeitura de São Paulo, aos ministérios Público Estadual e Federal, e às comissões de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e da Câmara Municipal.

Um novo evento entre os jovens está marcado para o próximo domingo (2/4) no Parque Ibirapuera (zona sul de São Paulo), onde são esperados cerca de 10 mil jovens.

Tatuagem

Com tatuagens na mão, braço e no pescoço, K. R., que preferiu que somente suas iniciais fossem divulgadas, afirmou ter sido criminalizado pelos guardas municipais.

“Os GCMs pediram para encostar, discriminação pela tatuagem, chamando de bandido, falei que eu trabalhava, estudava. [Ele] falou que eu não estudava porra nenhuma, que era do crime, do tráfico. Só porque eu faço tatuagem, eu não sou bandido. Num mundo que os maiores bandidos que roubam estão de terno e gravata, falei isso para ele”, completa K. R. Ele afirmou à reportagem não ter feito boletim de ocorrência por ter ter sido agredido fisicamente.

Questionado se os encontros nos parques não são regados pelo consumo de álcool e drogas, Darlan Mendes afirma que um dos papéis da associação é a orientação quanto aos malefícios e danos causados aos adolescentes pelo uso de entorpecentes. “Fazemos a advertência quando presenciamos. Chamamos eles e falamos que não é o caminho certo. Não bebe. Muitos escutam a gente, mas com essa forma de opressão, não”, explicou Mendes.

História dos rolezinhos

Os rolezinhos se iniciaram 2013 em shoppings localizados na periferia da capital com o intuito de paqueras ou para se conseguir o maior número de seguidores em redes sociais. Após os centros comerciais obterem liminares na Justiça contra os encontros, que atraiam um grande número de pessoas, os rolezinhos, com anuência do poder público, passaram a ser realizados em parques, principalmente nos municipais Ibirapuera e do Carmo, além do estadual Villa Lobos, na zona oeste.

Acontece que, em julho, a gestão do então prefeito Fernando Haddad (PT), alegando falta de verba, suspendeu o patrocínio aos eventos, como conta o presidente da associação. “Nós apontávamos os locais e a prefeitura disponibilizava a infraestrutura, com palco, som, iluminação, banheiro químico, posto médico, ambulância e segurança. Nossas atividades patrocinadas tinham entre 10 mil e 35 mil pessoas, sem ocorrência”, pontuou Mendes.

Outro lado

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que a Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana vai investigar as denúncias que receber sobre a atuação de qualquer de seus membros no Parque do Carmo, no sábado, dia 25 de março. “Nenhum comportamento irregular ou inadequado será tolerado”, informa a prefeitura.

A administração municipal realiza, desde o dia 12 de março, operações nos parques da capital para evitar o consumo de álcool e drogas por adolescentes. Trata-se de uma força-tarefa que envolve as secretarias de Governo, do Verde e Meio Ambiente, dos Direitos Humanos, da Saúde, Segurança Urbana e de Prefeituras Regionais.

O objetivo do trabalho é conscientizar os jovens sobre os malefícios do álcool e das drogas. Para tanto, os adolescentes são orientados a aproveitar o espaço dos parques da melhor forma, por meio de atividades esportivas, culturais e de lazer.

Também há ações de orientação sobre sexualidade, inclusive com a instalação de unidades móveis do Cento de Cidadania LGBT; distribuição de água para hidratar os jovens e a disponibilização de ambulâncias para atender eventuais emergências.

Paralelamente, guardas civis metropolitanos e fiscais das prefeituras regionais fiscalizam o comércio ilegal de bebidas e o consumo por adolescentes. As ações já vêm resultando na redução dos danos provocados pelo abuso de álcool. No último final de semana, nenhum atendimento por embriaguez excessiva ou coma alcoólico foi registrado pelas equipes médicas presentes.

A força-tarefa teve início em 12 de março, no Parque Ibirapuera – já foram realizadas, desde então, três operações. No último sábado (25/3), foi estendida ao Parque do Carmo, em decorrência de um evento esporádico convocado pelas redes sociais. Desde o início da força-tarefa, 1.568 litros de bebida alcoólica foram apreendidos.

Comentários

Comentários

Enviar um comentário