Mesquita fundada em favela de SP resiste ao preconceito com fé e cultura

Criada por um ex-rapper em Embu das Artes a comunidade sofre ataques diários de intolerância

Até conhecer o hip-hop e a história de Malcom X, líder norte-americano da luta por direitos civis e muçulmano, mais ou menos no final dos anos 80, o office-boy César Matheus, morador da periferia de São Paulo, não sabia nada sobre o Islã.

O interesse pela religião dos muçulmanos foi crescendo ao longo do tempo. Após um período de crescimento pessoal, militância social, pesquisas e uma carreira no rap em grupos como Tribunal Negro, Organização Xiita, Diagnóstico e Jihad Brasil, Cesar, que no meio do hip-hop era conhecido como Vulto, optou por uma atuação mais consistente na divulgação do Islã. Foi assim que surgiu a ideia de criar, em 1999, o centro cultural e biblioteca comunitária Zumaluma, depois a mussala Rahmah (sala de oração) e finalmente, em 2016, a Mesquita Sumayyah Bint Khayyat.

“O Islã está mudando para melhor a realidade de muitas pessoas dentro da favela e isso incomoda muita gente”

Em 2008, César trocou o nome para Kaab Abdul Al Qadir, passando a se dedicar exclusivamente a divulgação do Islã e ao fortalecimento da comunidade muçulmana nas quebradas. “Tudo começou com um pequeno espaço aqui na comunidade mesmo para estudos, orações e ensinamentos sobre a religião no geral. Depois tivemos que alugar um espaço maior porque o número de frequentadores cresceu. O nosso sonho foi dando frutos”, diz.

É a primeira mesquita dentro de uma favela brasileira e, justamente por isso, diariamente enfrenta ataques de conteúdo preconceituoso e intolerância religiosa. “O Islã está mudando para melhor a realidade de muitas pessoas dentro da favela e isso incomoda muita gente. Uma parte da mídia incentiva tal de comportamento por meio de reportagens ora tendenciosas, ora distorcidas e muitas vezes mentirosas mesmo. Querem a todo custo ligar a nossa imagem com o terrorismo ou o extremismo, mas essa não é a verdade”, diz Kaab, que hoje tem 42 anos de idade.

Sem nenhuma prova, uma revista semanal de circulação nacional publicou uma matéria com o título “Um jihadista no Brasil”, usando uma fotografia do Kaab Abdul Al Qadir. “A matéria tentava construir uma falsa ideia de ligação entre o nosso trabalho com o radicalismo de extremistas e ataques terroristas. Sofro perseguição até hoje por isso. As redes socais estão cheias de pessoas dispostas a atacar e destilar ódio”, diz.

Mesquita

Atualmente, a mesquita Sumayyah Bint Khayyat tem uma média de 30 frequentadores por dia, porém, as atividades abertas promovidas para a divulgação do Islã chegam a número maior de pessoas na comunidade. São aulas de árabe para adultos e crianças, aulas de português para estrangeiros, ações sociais, aulas de defesa pessoas e palestras.

A relação com a comunidade em Embu das Artes é harmônica. As mulheres com os cabelos cobertos pelo hijab, lenço árabe que é um sinal de modéstia, não causam nenhuma reação hostil no bairro, ao contrário do que acontece em outros locais públicos. “Quando estou em um supermercado ou no metrô com as minhas roupas, percebo muitos olhares de reprovação e preconceito. Falta de conhecimento sobre o islã”, diz.

“O nome da mesquita foi escolhido para homenagear e valorizar a figura da mulher no islamismo. Sumayyah foi uma mártir que preferiu a morte a negar sua fé. É essa força de luta e resistência que move os nossos corações. Não queremos explodir ninguém ou destruir quem não segue o Islã. Só queremos pregar a nossa religião e, paz e com respeito, do mesmo modo que respeitamos as outras pessoas”, diz.

Nas redes sociais, Kaab é constantemente vítima de calúnias e difamações. Por contra das réplicas para tentar esclarecer as mentiras, ele foi denunciado diversas vezes e até teve o perfil bloqueado, por 15 dias, no Facebook.

“Um cara, uma vez, postou uma foto minha em cima da laje aqui na favela Cultura Física, no jardim Santa Rosa, em Embu, dizendo que eu estava lá na comunidade da Maré no Rio de Janeiro, recrutando terrorista. Nunca estive na favela da Maré. Isso viraliza na internet e a mentira só cresce”, diz.  A repercussão foi ruim, principalmente porque isso gerou um erro do próprio governo. Um assessor da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, pouco antes das Olimpíadas, fez uma palestra para oficiais do Exército e exibiu a imagem do Kaab na laje do Embu com um amiga e repetiu a versão de que era uma fotografia da favela da Maré, no Rio de Janeiro,  e ainda levantou uma suspeita de infiltração terrorista. Dias depois, questionado por membros da comunidade árabe sobre essa história, o assessor se desculpou e admitiu que retirou as imagens para a palestra aleatoriamente da internet.

O uso da expressão Jihad, usado pela revista para definir extremistas é errado. “O sentido da Jihad no Islã é a da nossa luta interior, nosso esforço para nos tornámos uma pessoa melhor, em último caso é a defesa. O conceito de Guerra Santa vem da Europa medieval, nunca foi nosso”, diz.

A reportagem distorcida da revista e a palestra serviram de munição para diversos ataques orquestrados pela internet e por telefone contra Kaab e a mesquita.  “Sempre que publico algo nas redes sociais, aparece uma multidão atacando de forma pesada. Chega a ser curioso porque dizem para eu e os outros muçulmanos brasileiros “voltar para nossa terra”, como se não tivéssemos nascido aqui. E mesmo se fosse estrangeiros, qual o problema? Este é um país formado por imigrantes, tanto voluntários como involuntários, como é o caso dos negros que foram escravizados. E muitos desses homens e mulheres negros eram muçulmanos, como os malês. Somos parte da história deste país”, diz.

 

Morte na prisão

No ano passado, um rapaz muçulmano foi preso sob acusação de apologia ao Estado Islâmico e acabou sendo morto aqui no Brasil. “Esses jovens foram presos por se posicionar nas redes sociais, por falar coisas até com um pouco de irresponsabilidade, mas não a ponto de serem colocados como terroristas. Se for por isso, teriam então que prender muita gente, de várias posições religiosas e políticas, que fazem pior na internet. Aí vem a minha pergunta: eles foram presos porque eram muçulmanos? E se fossem cristãos? A mídia só piora colocando todas as religiões no mesmo saco e gerando desinformação”, complementa.

A história de fé e superação do Kaab e o surgimento da primeira mesquita dentro de uma favela virou tema de um curta-metragem chamado Vultos, que será lançado em 2017.  Atualmente, ele colabora com um projeto chamado Dawa Mochileiros Muçulmanos que sai pelo Brasil falando sobre o Islã. A palavra Dawa significa divulgação. “O Islã é um ato de conhecimento e não de convencimento. Não há a imposição da religião”, diz.

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