“O policial puxava-o pelo pescoço e apontava a arma para sua cabeça”

Para a ativista norte-americana Marion Gray-Hopkins, que teve o filho de 19 anos morto por um policial, o papel da mídia é fundamental para desconstruir o discurso preconceituoso e criminalizador contra jovens negros mortos por policiais

 

A ativista norte-americana Marion Gray-Hopkins mostra foto de seu filho Gary, morto aos 19 anos por um policial. | Foto: Luiza Sansão / Ponte Jornalismo


No Brasil para participar de debates sobre mobilização de familiares de vítimas da violência policial e do racismo, como o lançamento do relatório “O Estado do Direitos Humanos no Mundo 2016/2017”, da Anistia Internacional, a norte-americana
Marion Gray-Hopkins falou com exclusividade à Ponte Jornalismo.

Ela teve o filho de 19 anos, Gary Hopkins Jr., assassinado por um policial nos Estados Unidos há 17 anos. Negro, o jovem cursava faculdade de Comunicação, “amava escrever, cantar rap e tinha um sorriso que iluminava os lugares por onde ele passava”, segundo Marion, que perdera também seu companheiro dias antes. Ela transformou sua dor em combustível para lutar por justiça.

Marion integra o movimento Coalition of Concerned Mothers (“Coalisão de Mães Preocupadas”), que reúne famílias que foram afetadas por assassinatos sem sentido, brutalidade policial e encarceramento em massa, e a Coalition for Police Accountability (“Coalização para a Responsabilidade Policial).

O caso Gary Hopkins

Na noite de 26 de novembro de 1999, o jovem foi com amigos e primos assistir a uma apresentação de dança em uma estação do Corpo de Bombeiros no bairro em que vivia com sua família, no Condado de Prince George’s, no estado americano de Maryland. Para ele, era especialmente importante usar, naquela noite, roupas de seu pai, que falecera em decorrência de um câncer 16 dias antes, e a quem ele era muito apegado.

Durante o evento, um de seus amigos teve uma discussão com outro rapaz sobre uma garota e Gary interveio, pondo fim ao desentendimento de forma pacífica e convencendo o grupo a ir embora para sua casa, onde, segundo Marion, eles costumavam passar muito tempo, pois tinham uma relação de amizade muito forte.

Os jovens dirigiram-se aos três carros onde haviam se dividido e Gary estava no banco de trás do primeiro carro. Ao abrir a janela para verificar se os outros dois automóveis com o restante do grupo encontravam-se logo atrás e pronto para sair, um carro de policiais se colocou à frente, bloqueando a passagem e impedindo que os jovens deixassem o local.

Um policial negro saiu do carro com a arma já em punho, apontando-a para a cabeça de Gary, disse para todos descerem do carro e puxou Gary para fora do carro pelo colarinho da camisa. “Enquanto ele era puxado, tentava afastar a cabeça do cano da arma do policial, segundo seus amigos”, conta Marion.

“O policial puxava-o pelo pescoço e apontava a arma para sua cabeça, e ele estava prestes a cair. Então outro policial, um branco, atirou contra o peito de Gary. Nesse momento, Gary caiu de costas no chão e duas de suas amigas correram para socorrê-lo, para pressionar a ferida e tentar estancar o sangue. Então os policiais puxaram Gary das mãos das meninas e jogaram-no como um bicho do outro lado da rua”, narra a mãe. “Era uma estação de bombeiros, ou seja, havia paramédicos no local e nenhum deles socorreu meu filho. Ninguém ofereceu ajuda. Pelo contrário, os policiais o tiraram do caminho para impedir que alguém o ajudasse”, indigna-se.

As amigas de Gary então telefonaram para Marion para contar o que tinha acontecido. “Eu simplesmente não conseguia acreditar. Havia perdido meu marido havia 16 dias e só conseguia pensar ‘isso não pode estar acontecendo, oh, Deus, não!’, e ela disse ‘sim, isso aconteceu’. Eu disse ‘Ele está vivo?’, e ela disse ‘acho que sim, venha para cá rápido’”, recorda.

Marion e o reconhecido ativista dos direitos civis Rev. Walter Fauntroy em celebração que homenageou Martin Luther King em janeiro, nos Estados Unidos, ocasião em que houve uma vigília para Gary Hopkins Jr. | Foto: Arquivo Pessoal

Era pouco mais de meia-noite, início do dia 27 de novembro. Marion chegou em poucos minutos ao local do crime, que era bem próximo de sua casa, e encontrou a área isolada com uma fita amarela. “Saí do meu carro e disse ‘eu sou a mãe, meu filho acabou de ser baleado, preciso vê-lo’, mas não deixaram eu me aproximar, eles disseram ‘não, aqui é uma cena de crime, você não pode cruzar esta fita’”, lembra.

Aflita, ela teve de pegar um caminho alternativo para chegar ao hospital para onde levaram Gary, que era em frente à estação do Corpo de Bombeiros, mas em função do isolamento da área, não havia como simplesmente atravessar. Quando ela chegou ao hospital, cerca de dez minutos depois, deparou-se com dois detetives, que lhe disseram que ela não poderia ver seu filho e que ele estava morto.

“Eu estava em lágrimas, chorando, e disse ‘por favor, deixem-me ver meu filho’. Eles estavam em um pequeno cômodo de vidro, meu filho estava deitado e eu só pude ver seu rosto, à distância”, conta. Segundo os policiais, ele tinha morrido na cena do crime e estava ali para que um médico declarasse oficialmente sua morte.

Naquela madrugada, os amigos de Gary foram levados e uma delegacia e interrogados. Com base em seus depoimentos, o promotor de Justiça constatou que havia evidências o bastante para denunciar o policial que atirou em Gary. O outro policial, que apontou a arma para ele e puxou-o pelo colarinho para fora do carro, entretanto, não fora processado, embora já houvesse outros três processos contra ele por “uso excessivo da força”.

Em um dos processos, relativo a um abuso praticado pelo agente em um evento também realizado na estação do Corpo de Bombeiros, Gary era testemunha, o que indica motivação para o crime. Os policiais alegaram que não conheciam Gary antes, mas Marion não tem dúvidas de que o crime foi motivado por vingança. “Absolutamente”, afirma a mãe.

O caso foi a julgamento. “Foram sete longos dias de depoimentos. O juiz estava dormindo na maior parte do tempo. Era praticamente um circo. Ele não perguntava o que deveria perguntar, e nós pedíamos para ele perguntar isso e aquilo. Ficamos todos muito chateados. Eu e minha família estávamos enlouquecendo”, recorda.

Os policiais alegaram que haviam recebido por rádio a denúncia de que havia drogas, álcool e arma no carro dos jovens, mas jamais apresentaram qualquer prova, como o áudio da suposta denúncia. “Isso foi o que eles usaram para justificar o fato de terem agido daquela forma, saindo da viatura armados e apontando a arma para a cabeça de um rapaz. Usaram isso como desculpa”, afirma Marion.

A imprensa local, segundo ela, reproduziu a versão dos policiais, criminalizando seu filho. “Era uma notícia grande em âmbito local e a mídia contou a história a partir da versão dos policiais. Eles já haviam criado uma narrativa de que Gary estava lutando para tomar a arma do policial e de que havia drogas, álcool e uma arma dentro do carro”, conta a mãe. Para ela, o papel da imprensa é fundamental para desconstruir o discurso preconceituoso e criminalizador contra os jovens negros mortos por policiais e jornalistas “devem buscar conhecer a história real das vítimas” para evitar isso.

“O Sindicato dos Policiais é muito forte lá, eles elegem políticos, financiam pessoas, são muito fortes e influentes. Então eles contrataram um dos melhores advogados que o dinheiro pode comprar para esse policial [acusado]. Nós fizemos a acusação, mas o time da acusação, da promotoria, nunca havia atuado em um caso como este antes, de homicídio. Eles costumavam atuar em casos envolvendo crimes de colarinho branco, fraudes fiscais etc.”, conta.

Por fim, o policial foi absolvido. E a vida de Marion nunca mais foi a mesma. Ela se uniu a ativistas norte-americanos em uma luta incessante por justiça, não apenas para seu filho, mas em defesa de jovens negros assassinados por policiais nos Estados Unidos e no mundo.

Confira abaixo parte da entrevista da Ponte com a ativista norte-americana Marion Gray-Hopkins:

A senhora já era uma ativista antes de Gary ser morto?

Não. Eu era muito inexperiente com relação a abusos praticados por policiais. Eu era considerada como pertencente a uma classe média alta. Nunca fui envolvida em casos de brutalidade policial. Nós tínhamos duas fontes de renda, fundo de pensão, meu filho era universitário e eu acreditava no sistema, na forma como ele foi moldado. Então não pensava sobre essas questões.

O que representa para a senhora esse contato com as mães de vítimas brasileiras, como o movimento Mães de Maio?

Quando comecei minha luta, ela era local. À medida que conheci mães ao redor dos Estados Unidos, tornou-se uma luta nacional por justiça. E agora minha luta por justiça se tornou internacional.

Eu conheci Debora [Maria da Silva] e conheci Ana Paula [Oliveira] nos Estados Unidos e nós sentimos a mesma dor pela perda dos nossos filhos. Eu não tenho respostas. O que eu sei é que existem muitas coisas semelhantes quando analisamos temas comuns que conhecemos, como o fato de a classe social e a cor da pele definirem se você vive ou morre quando está face a face com agentes da lei.

O que nós podemos fazer de diferente? Elas estão em organizações aliadas àquelas com as quais trabalhamos, que nos ajudam a saber quais são nossos direitos. Conversando sobre nossos filhos, identificamos essas coisas, que são muito semelhantes. Coisas que acontecem com todas nós, independentemente de onde vivemos.

Elas lutam, nós lutamos e vamos continuar lutando juntas. E pretendemos vencer juntas.

Como a senhora encontrou forças para lidar com a dor da morte do seu marido e do seu filho, tendo sido as duas tão próximas?

Tudo o que eu posso dizer é que me agarrei à minha fé. Eu sou a fonte de força da minha família e preciso estar lá para ela. Meu marido e meu filho sempre diziam que eu a pessoa mais forte que eles já conheceram. Quando meu marido estava mal, em seu último suspiro, ele tirou a máscara e disse: ‘Você é meu soldado, você é minha força. Continue sendo meu soldado’. Isso ficou comigo para sempre. E eu penso que quando meu filho foi tirado de mim, dezesseis dias depois da morte do meu marido, sua voz veio à minha cabeça. Ser seu soldado. E e eu sou seu soldado nessa luta.

Assista ao vídeo com depoimento da ativista (tradução abaixo):

“Quando eu penso na minha situação pessoal, meu marido dizia que eu era a pessoa mais forte que ele já conheceu na vida. E ele esperava morrer antes, porque não sabia como prosseguir sem mim, pois eu era aquele soldado forte em sua vida. No seu leito de morte, ele me disse: ‘você é meu soldado, aguente firme, você é meu soldado’. Então, quando eu penso no trabalho que eu faço, eu apenas faço porque sei que sou, de fato, seu soldado. Então eu luto”, diz Marion Gray-Hopkins.

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