PM mata quatro a tiros em favela do Rio de Janeiro

Manchas de sangue, chinelos, um boné e uma camiseta: tudo o que restou das vítimas - Foto: Arquivo pessoal

Segundo moradores, os policiais também invadiram uma casa e mantiveram um casal de idosos preso em um quarto por cerca de cinco horas, na favela Final Feliz, no Complexo do Chapadão, zona norte

Manchas de sangue, chinelos, um boné e uma camiseta: tudo o que restou das vítimas – Foto: Arquivo pessoal

“Foi um massacre, a rua cheia de sangue, as paredes dos bares, os postes, as calçadas, tudo cheio de sangue”, relata uma moradora do Complexo do Chapadão, na zona norte do Rio de Janeiro. Nesta segunda-feira (13/02), segundo moradores, policiais militares do 41º BPM (Irajá) mantiveram um casal de idosos preso em sua própria casa por cerca de cinco horas para ficar de tocaia e surpreender jovens supostamente envolvidos com o tráfico local. Quatro rapazes foram mortos.

A casa invadida pelos policiais é de um senhor de cerca de 70 anos, identificado como Milton, que, traumatizado e com medo de represálias, não deu depoimento. Segundo moradores da comunidade, ele e sua esposa foram mantidos presos em um quarto e o cachorro do casal no banheiro da casa, enquanto os policiais permaneceram na sala por aproximadamente cinco horas: chegaram pouco depois das 13h e só deixaram por volta de 18h40 a residência, localizada na esquina das ruas Morais Pinheiro e Capri, onde deram início a uma sequência de disparos.

Porta da casa de onde os policiais saíram. Foto: Arquivo pessoal

“Eram seis e quarenta, sete horas. Eles saíram da casa do seu Milton atirando em direção ao bar [da frente], os moradores correndo. Minha sorte é que meu menino tinha acabado de chegar da padaria. Todo mundo se abaixando dentro de casa, e eles atirando, não deu tempo nem de ninguém reagir”, conta uma moradora, que não terá sua identidade exposta devido ao risco de represálias.

“Na hora em que eles mataram os garotos e acabaram os tiros, os moradores foram para a rua para ver o que estava acontecendo, quem estava morto, quem estava vivo pra socorrer. Eles [policiais] não deixaram, atiraram pra cima dos moradores. Sem nenhuma necessidade, risco de alguém morrer. Depois eles botaram os garotos dentro de um carro branco, como se fossem lixo, e saíram”, completa.

Três dos jovens baleados foram identificados por moradores apenas como Felipe (vulgo “Zói”), de 34 anos, Lucas, de 19, e Raphael. Enquanto três rapazes foram vistos mortos em fotos que circularam pelas redes sociais, Raphael apareceu hospitalizado em foto compartilhada por dezenas de conhecidos que fizeram votos de que ele se recuperasse. A Polícia Civil afirmou que os quatro homens mortos ainda “estão sendo identificados”.

 

Felipe, conhecido como “Zói”. Foto: Arquivo pessoal

 

Lucas. Foto: Arquivo pessoal

 

“Tem gente que decide que nem Deus quando é que os meninos têm que morrer”.  A frase é de uma moradora do Complexo do Chapadão que já viu várias mães chorarem as mortes de seus filhos por policiais nos últimos anos. Ela afirma que ações como a ocorrida ontem são frequentes. “Isso já está virando moda pra eles. Sequestram os outros e dão botes na boca de fumo”.

Manchas de sangue no local onde os jovens foram baleados. Foto: Arquivo pessoal

Outro lado

Questionada pela reportagem sobre as circunstâncias em que os jovens foram mortos e a invasão da casa do casal de idosos, a PM limitou-se a responder, por meio de sua assessoria de imprensa, que:

De acordo com o comando do 41º BPM (Irajá) na noite desta segunda-feira (13/02), policiais realizavam operação no Complexo do Chapadão, Irajá, quando se depararam com bandidos armados. Houve confronto e três criminosos morreram, quatro ficaram feridos e dois foram presos. Com eles os PMs apreenderam: dois fuzis, uma pistola, duas granadas, um carro roubado e material entorpecente.

A reportagem perguntou à Polícia Civil sobre o registro das ocorrências, se houve realização de perícia no local dos homicídios e se a Divisão de Homicídios da Capital investigaria as circunstâncias em que os mesmos ocorreram. Em resposta, por meio de sua assessoria, a instituição enviou a seguinte nota:

Segundo informações da Central de Garantias da Polícia Civil – GC Norte, quatro homens foram presos em flagrante após Operação da Polícia Militar realizada na noite de ontem, 13 de fevereiro, na Comunidade Final Feliz, na Pavuna. Jeferson Bruno Rosa Veras, de 22 anos; Gilson Santana Rodrigues da Silva de 20 anos; Carlos Eduardo Barros de Oliveira, de 35 anos, e Wendell Marques de Souza, de 19, foram autuados pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, resistência qualificada, tráfico de drogas e associação para o tráfico de drogas. Na ação, outros quatro homens, que estão sendo identificados, foram baleados e chegaram a ser levados ao hospital mas não resistiram aos ferimentos. Com os presos foram apreendidas armas, munições, duas granadas e grande quantidade de drogas. Na ação, houve troca de tiros entre policiais militares e criminosos.

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