PMs demoram 5 horas para informar morte de adolescente

Lucas Custódio dos Santos, 16 anos

Segundo o Boletim de Ocorrência, atraso dificultou o trabalho dos peritos no local do crime. PM não explicou o porquê da lentidão

 

A Polícia Militar de SP demorou 5 horas para comunicar às autoridades da Polícia Civil a morte do jovem Lucas Santos Custódio, negro, 16 anos, assassinado a tiros por PMs na tarde de quarta-feira, 27/05, no Grajaú, extremo sul da capital. Segundo o Boletim de Ocorrência (B.O.) , a demora dificultou o trabalho dos peritos no local do crime, um matagal, na favela Sucupira, sem iluminação. Questionada pela Ponte, a PM não explicou o porquê da lentidão.

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Trecho do B.O. sobre lentidão dos policiais para comunicar a morte de Lucas

Lucas voltava de um jogo de futebol e, ao passar por uma área de matagal na Favela do Sucupira, região do bairro do Grajaú (zona sul de São Paulo), foi ferido com dois tiros de pistola .40, um no peito e outro no abdome.

O caso, registrado como “morte decorrente de intervenção policial”, ocorreu às 14h25, foi comunicado ao 101 D.P., Jardim das Imbuias, às 20h30 e de lá encaminhado ao DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e Proteção a Pessoa), onde chegou às 22h51. A família de Lucas, chegou ao departamento antes mesmo dos policiais.

“Chegamos ao DHPP umas oito e pouco da noite. O pessoal, o escrivão, nem sabia da situação, a gente chegou lá para pegar o papel para ir no hospital pegar o corpo e levar para o IML. Aí, depois os policiais chegaram lá já dizendo que foi resistência da parte do jovem, sendo que ele estava jogando futebol”, conta um primo de Lucas que foi com a família no DHPP.

Os policiais tenente Flávio Augusto Godoy e o cabo Aparecido Domingues Vieira, ambos do 27o. Batalhão da Polícia Militar (BPM), ambos brancos, informaram que faziam patrulhamento de rotina quando foram avisados que uma pessoa portando arma de fogo entrara na favela Sucupira. Os PMs se dirigiram até o local e a partir de então a versão repete o roteiro de outras tantas mortes registradas como decorrentes de intervenção policial:

“O referido indivíduo, ao perceber a aproximação de policiais, fugiu em direção a um matagal existente atrás da comunidade e foi perseguido. Durante a perseguição, segundo os militares, o indivíduo teria efetuado disparos. Houve revide por parte dos policiais Flávio e Aparecido e o indivíduo foi atingido caindo no chão.” De acordo com os policiais, Lucas estaria com um um revólver calibre.38, com a numeração raspada, e com três disparos disparados.

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Trecho do B.O.
Trecho do B.O.

 

O indivíduo baleado, Lucas Custódio, foi atingido no peito e no abdomen, era órfão de mãe, tinha 16 anos, media cerca de 1.70, morava com o pai, Edilson, pedreiro na própria favela Sucupira, uma irmã e um irmão. Ele tinha registro de ato infracional por roubo em 2013. Segundo os policiais, o adolescente morreu no Hospital Geral do Grajaú, mas moradores que testemunharam o atendimento do SAMU disseram que ele morreu no local.

Lucas Custódio dos Santos, 16anos
Lucas Custódio dos Santos, 16 anos

O caso provocou revolta entre os moradores da favela que fecharam a Av. Dona Belmira Marin, na altura do número 3200, em protesto contra a morte do rapaz. A polícia atirou balas de borracha contra os manifestantes e espancou um jovem de 20 anos, obreiro da Igreja da Comunhão e Vida.

Questionada três vezes sobre a morte de Lucas e sobre as denúncias de agressão, a PM não respondeu.

O enterro de Lucas será ao meio-dia desta sexta-feira (29/05), no cemitério São Luiz.

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